artigos Técnicos
O MAL USO DO BRIDÃO EM CAVALOS MARCHADORES

*Lúcio Sérgio de Andrade

Nada melhor do que iniciar esse artigo transcrevendo partes do texto sobre bridão do livro publicado pelos mais famosos fabricantes de embocaduras nos Estados Unidos, a familia MILLER:

“Frequentemente, cavalos são equitados no bridão com pressão constante de rédeas. É uma dor constante nos pontos de controle da boca”.

“O bridão não é a mais gentil das embocaduras, como reputado”

“No bridão,  o cavalo responde aos comandos de rédeas  através do princípio intimidação X relaxamento

“O bridão é uma embocadura limitada, boa para cavalos com pouco ou nenhum treinamento”

“O bridão não é a embocadura ideal. Geralmente é mal utilizada, especialmente quanto ao tempo de uso”.

O bridão é pode ser considerado como embocadura amadora, de principiantes, cavalo e cavaleiro, devido ao tipo de rédea ( direta ) e ao único efeito de sua ação, atuando simultaneamente sobre a língua, barras e comissuras labiais. Ao contrario, o freio é embocadura profissional, do cavalo em fase de adestramento avançado, ou pronto para competir, exercendo efeitos multiplos, pelas ações simultaneas do bocal pressionando língua, barras e comissuras labiais; bocal pressionando palato; e a pressão da barbela. Este complexo mecanismo de ação do freio é desencadeado pela ação das rédeas movimentando as hastes, que exercem o efeito alavanca, aquele que atua de maneira eficaz sobre a região da nuca. Com o freio, a ação das rédeas é indireta, o que implica em uma rédea de oposição.

 

Figura – Partes componentes do bridão

 

Figura – Partes componentes do freio

 

Geralmente, a boca do cavalo é subavaliada, talvez porque suas partes não estejam à vista. Os pontos de avaliação que interagem com a ação da embocadura são:

- Pontas de dente, que podem prejudicar a ação da embocadura e causar desconforto. Geralmente estão localizadas nos molares e pré-molares, os principais dentes da mastigação. Os problemas mais frequentes estão no primeiros dois pré-molares e nos dentes de lobo, que são pequenos dentes, que nascem em alguns cavalos, estando localizados antes dos pré-molares, exatamente na área de atuação do bocal. As pontas devem ser limadas e os dentes de lobo extraídos. Caso contrario, a postura da cabeça jamais estará correta, como fuga aos contatos da embocadura.

- Ferimentos nas barras, língua e/ou comissuras labiais. Primeiro, é preciso tratar. Depois, usar a embocadura. Ao contrário, o cavalo estará sempre fora do controle pleno da embocadura, além do risco de formar calosidades, devido à cicatrização precária;
- Calosidades nas barras e/ou comissuras labiais, o que inibe a ação da embocadura. As areas de calosidades, de ferimentos mal cuidados, são áreas de pouca sensibilidade;
- Altura do palato, tamanho e consistência das barras e língua, para melhor escolher o tipo de embocadura. De acordo com a altura do palato, será escolhido o tipo de freio em relação à altura do bocal. Barras e lingua maiores geralmente respondem bem à pressão de embocadura de ação branda. Mas quando muito espessas, as respostas serão melhores com embocadura de ação moderada ou severa.

Uma informação importante é que em relação ao freio, o bridão atua muito mais sobre a lingua, sendo comuns os casos de cavalos que passam a lingua acima do bridão como fuga ao desconforto da pressão contínua. A causa tanto pode ser falha nos comandos de rédeas como na escolha do tipo de bridão, quanto ao modelo e forma de ação.

Reforçando o entendimento do que sente o cavalo quando o cavaleiro puxa com mais força as rédeas que se prendem aos olhais de um bridão: sente inestimável desconforto sobre a língua, barras e comissuras labiais. A reação imediata é elevar a cabeça e lançar o focinho adiante, como forma de amenizar o desconforto da dor. Esta ação pode ser entendida como uma força de resistência, que será tanto maior quando mais rígida estiver a nuca. Assim, podemos afirmar que o bridão exerce efeito elevatório da cabeça. A posição correta da cabeça de um cavalo enfrenado, na estática ou em movimentação, é vertical em relação ao solo, formando angulo de 90 graus. Esta postura, que oferece o melhor conforto ao cavalo, além de favorecer a ação correta da embocadura, somente é possível com o relaxamento e flexão correta da nuca. Como resultado, os membros posteriores engajam-se com mais facilidade e eficiência, ganhando condição favorável para transformar força em movimentação desenvolta, equilibrada e elegante.

 

Foto – Posição correta da cabeça de um cavalo enfrenado. Notar o angulo vertical em relação ao solo e a flexão correta da nuca.

 

De acordo com o grau de  severidade da ação, o bridão pode ser brando, moderado, severo. Quanto menos espesso o bocal, mais severa é a ação. As referencias de medidas são: bocal até 1,0cm de espessura – severo; bocal entre 1,0 a 2,0 cm – moderado; bocal de 2,0cm acima -  brando. O peso da embocadura não tem relação direta com o grau de severidade.

Existe uma vasta gama de modelos de bridões. Devem ser escolhidos de acordo com a finalidade de uso do cavalo. Os mais comuns são os bridões de olhal redondo, de olhal em D e em D’agulha. A articulação com o bocal não deve apresentar folga, para não beliscar os lábios. Havendo folga, recomenda-se o uso de borracha protetora. O material mais comumente utilizado é o aço inox, principalmente pela sua durabilidade. A desvantagem é que o aço tem pouco paladar e reduz a salivação. O ferro é de fácil aceitação e resistente, mas enferruja. O cobre é um bom material, pois estimula a salivação, podendo também ser usado em combinação com o aço inox, em partes fixas ou móveis. Dentre os materiais não metálicos temos a borracha, plástico e couro, sendo este ultimo usado como revestimento da peça metálica. São materiais de aceitação mais fácil, por serem macios. Uma desvantagem da borracha é que esquenta com o excesso de atrito. Assim, bridões de borracha devem ser usados com moderação em cavalos que ja passaram pelo adestramento básico.

Como regra geral para cavalos marchadores, e levando em conta que não se deve prolongar em demasia o tempo de uso do bridão, recomendo utilizar o  modelo de olhal em D’agulha ( com hastes ), de ação moderada. Este tipo de olhal dispensa o uso de borrachas protetoras e as hastes ajudam no apoio. Em alguns cavalos de boca sensível, o primeiro bridão deverá ser o de ação branda. A primeira embocadura jamais deve ser de ação severa.

Atualmente, o bridão é a embocadura mais utilizada nas exposições da raça Mangalarga Marchador. Vários campolinistas ja começam a imitar, a exemplo do que ocorreu recentemente com o uso da sela canadense,  a tendência de alguns árbitros a também valorizarem os andamentos mais diagonalizados, dentre outros exemplos de plágios fúteis, que não guardam relação direta com o aprimoramento genético da raça. Como a velocidade nos Concursos de Marcha é extrema, anti-natural e incompativel com o bom diagrama de MTAD – Marcha de Triplices Apoios Definidos, o bridão passou a ser embocadura preferencial. O cavaleiro aciona as rédeas com contato, não com reunião. E o pior, é um contato desagradavel, pois o cavalo marcha apoiado na embocadura, com grande desconforto para as mãos e braços do cavaleiro, além de forçar uma posição adiantada e elevada das mãos. O cavalo vicia na velocidade, na rotina dos treinamentos e nas competições sucessivas. O Cavaleiro precisa conter a ansiedade do cavalo em aumentar a velocidade. Aumenta o desconforto sobre os pontos de controle – lingua, barras e comissuras labiais. É uma forma de agressão. O cavalo “pede” a troca de embocadura
( para o freio ) e não é “atendido”. Sua resistência é punida com uma resistência ainda maior das mãos do cavaleiro. É um cenário triste, impossível de ser apreciado. Triste também ao ser descrito.

Nos cavalos Puro Sangue Ingles o uso exclusivo do bridão é compreensível, pois é necessario liberar a velocidade. Qualquer contato de rédea usando o freio reduziria a velocidade. Nos cavalos de salto o uso do bridão também é compreensível. Da mesma forma nos cavalos de passeio, mas que frequentemente são entregues no freio aos leigos em equitação. Como sofrem nos comandos diretos de rédeas! Mas em cavalos de enduro, provas de maneabilidade, dentre outras atividades radicais, nada substitui a eficiência do freio, nos volteiros, esbarros e recuos.

Nos cavalos de MTAD – Marcha de Triplices Apoios Definidos, o freio sempre foi a embocadura de terminação do adestramento e de uso nos serviços de campo. No bridão é praticamente impossível conseguir a postura correta da cabeça nos andamentos naturais e, principalmente, no recuo. Além do mais, a reunião no freio é bem mais eficaz, mantendo a dissociação desejavel nos deslocamentos, pré-requisito para reduzir os tempos de diagonalidade, ou de lateralidade, conforme seja a modalidade da marcha – batida ou picada. Como nas pistas de julgamento (felizmente, só nas pistas, na contramão da preferencia dos usuários de cavalos de passeios e cavalgadas) predomina uma preferencia atual pela marcha batida, de pouca dissociação, o uso do bridão favorece este tipo de andamento. Ressalte-se que é uma preferencia anti-zootécnica, pois não há qualidade na maioria dos atuais exemplares de marcha batida nas exposições, ao contrário da marcha batida clássica raíz das raças brasileiras de cavalos marchadores, uma marcha batida centrada, de dissociação nítida e de comodidade impessoal.

O mal uso de embocaduras e a violência são as principais causas do cavalo mal educado, viciado. No Método LSA de Adestramento, desenvolvido por esse autor, o bridão é praticamente uma embocadura de transição, como forma de preparar a boca do cavalo para a introdução do freio. Todo o trabalho de flexão lateral do pescoço, tronco e membros, bem como a flexão vertical ( da nuca ) é executado sem o uso de embocadura, e tendo a voz como um dos instrumentos auxiliares de comando. O segredo é que um cavalo corretamente adestrado é equitado muito mais pela ação das pernas e do assento, tendo como alicerce o condicionamento mental, do que pela ação das rédeas.

Lamento afirmar que é uma vergonha o desrespeito à cultura da marcha tríplice apoiada, em praticamente todos os segmentos da criação de cavalos marchadores, iniciando pela seleção de animais de andamento excessivamente diagonalizado, sem dissociação visual, o que implica na falta ou indefinição dos momentos de tríplices apoios; passando pelo adestramento e  treinamento inadequados e culminando com apresentações de julgamento que não preservam a identidade das raças brasileiras de cavalos marchadores.

*Lúcio Sérgio de Andrade – Zootecnista, com especialização na Texas A&M University - USA, escritor, pesquisador, consultor de haras, instrutor de cursos de aperfeiçoamento técnico.

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